Finalmente, a entrevista com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva veio a público. Preso desde abril de 2018, o petista falou com jornalistas da Folha de S. Paulo e do El País, após o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizar. No entanto, após a publicação da conversa – com direito a vídeo -, nada mudou na estrutura da República. Lula continua com a língua provocadora, possui importância grande no cenário político e conseguiu exatamente o que sempre foi especialista em fazer: atrair para si as atenções.

Se Lula fosse irrelevante, a entrevista dele seria solenemente ignorada por outros veículos de imprensa, como até fizeram a Globo e a Record, e também pelos políticos. Se o ex-presidente não merece crédito por ser “bêbado”, qual a justificativa para o atual ocupante do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro, rebatê-lo? O petista havia sugerido que o governo é cheio de “malucos” e ganhou uma resposta em nível similar, com adjetivos dignos de uma turma de quinta série.

Para os eleitores e simpatizantes do PT, as falas de Lula foram essenciais para manter algum resquício de esperança de que o partido vá se estruturar para lidar com os desafios de voltar a ser oposição. Tanto que foi aceso o alerta entre adversários de que, caso a prisão do ex-presidente seja convertida em domiciliar, ele possa impactar a articulação política. Acontece que os porta-vozes de Lula, a exemplo da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, detêm tanta credibilidade que nem os próprios aliados conseguem leva-los a sério.

Já para aqueles que nunca gostaram daquilo que o ex-presidente representa – seja a esquerda, a corrupção, a defesa de mais igualdade social ou, simplesmente, o fato de Lula ser Lula -, a entrevista do petista deu mais fôlego para atacá-lo. Sim, Lula poderia ser um santo que ainda assim seria alvo de um segmento social que o trata como inimigo e não como adversário. Tanto que, em meio ao sem número de repercussões da conversa dele com jornalistas, sobraram críticas de que o petista não mereceria ser ouvido. Mas não dá para medir todo mundo com a mesma régua, principalmente quando existem grupos que o odeiam em proporção similar aos que o amam.

Uma coisa é inegável. Mesmo fora de circulação há mais de um ano, Lula continua um ás na política, cujos predicados seriam reconhecidos mesmo por quem está do lado oposto, caso vivêssemos em condições normais de temperatura e pressão. Como vivemos extremos, o ex-presidente parece ser, no final das contas, uma versão tupiniquim de Mr. Jekyll e Mr. Hyde. Fisicamente, ele não se transforma. Mas o alcance da voz dele depende de que lado o ouvinte esteja. Para uns, igual ao monstro do clássico da literatura. Para outros, se assemelha a um médico, capaz de salvar vidas.

Este texto integra o comentário desta terça-feira (30) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.

BN

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