Maternidade, letra de música, blog de moda. São diversas as fontes de inspiração para mulheres que desejam abandonar a química e assumir os cabelos crespos. A mudança, entretanto, não é só estética.

Algumas paulistanas entrevistadas pelo G1 contam como foi o processo de transformação, após anos alisando os fios por causa do preconceito sofrido na infância e adolescência.

Elas participaram, na manhã deste domingo (7), da Segunda Marcha do Orgulho Crespo, na Avenida Paulista, no Centro de São Paulo. Nacional, o movimento usa a questão capilar como mote para quebrar preconceitos e romper padrões de beleza. A primeira marcha aconteceu em julho do ano passado. Conheça as histórias:

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Yara Kassandra, de 20 anos, do Grajaú, Zona Sul de São Paulo, começou a fazer relaxamento e progressiva nos cabelos aos 11 anos. A motivação: “Era sempre zoada na escola. Para ser mais aceita comecei a alisar”, recorda.

Após cinco anos de química, quis assumir os fios de forma natural. “Não aguentava mais fazer progressiva”. Somado ao cansaço de alisar, havia também o desejo de ter uma identidade que valorizasse suas origens. “E já tinha mais noção, estava me reconhecendo como mulher negra”.

Segundo ela, o processo foi intensificado durante festa em sua escola, no Dia Nacional da Consciência Negra. No calendário oficial, a data é celebrada anualmente em 20 de novembro. “Um professor na escola fazia todo ano. Durante três dias trazia poetas negros, religiões afros, e no final tinha uma festa só com música negra.”

A transição capilar demorou quase um ano. “Eu deixei crescer até um certo ponto e cortei tudo”. Chamado de “big chop”, o corte elimina as partes onde a química está presente e deixa apenas o que há de natural no cabelo.

A reação inicial à mudança radical não foi boa. “Não gostei, eu chorei muito”, lembra.  Ela ainda conta que no dia do corte, se escondeu no banheiro para chorar, porque a mãe não apoiava a decisão de deixar o cabelo natural. “Ela é bem racista com ela mesma”.

O estranhamento foi superado rapidamente. Em menos de 24h Yara já estava feliz com o resultado. “No dia seguinte vi que realmente estava bonito”. O processo a fez perder o temor e inovar virou rotina. “Estou sempre tentando mudar. Já tive black, já fiz trança, já deixei colorido”.

Embora satisfeita com os resultados, ela conta que após assumir o cabelo crespo, enfrentou dificuldade para encontrar emprego, até mesmo em um salão especializado no seu tipo de cabelo.

“Eu fui procurar trabalho num salão afro, e aí a mulher disse que não ia me aceitar porque o cabelo estava natural, e aí tinha que deixar mais mole, relaxar um pouco mais, para deixar cacheado, não crespo”.

“Já era pra ter sido desconstruído essa ideia de que o cabelo crespo é feio”. Para Yara, a marcha que ocorre neste domingo é “boa para mostrar que tem pessoas negras, lindas e maravilhosas com seus cabelos crespos”.

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A história se repete. Com a percussionista Cristina Linhares, do Itaim Paulista, Zona Leste de São Paulo, o alisamento também foi a solução para evitar o preconceito. Hoje com 19 anos, ela conta que fez a primeira escova progressiva aos 14.

“Na escola sempre tinha uns coleguinhas que ficavam zuando, chamando de arame, pixaim. Por isso sempre andei de cabelo preso na infância”.

Ela chegou a retocar o procedimento uma vez, mas o cabelo alisado não durou mais que um ano. A ideia de voltar ao natural surgiu durante um ensaio de sua banda. “Estávamos tirando a música ‘Olhos Coloridos’, da Sandra de Sá [A música fez sucesso na voz de Sandra de Sá, mas é de autoria do compositor Macau]. Eu me inspirei nessa letra e resolvi assumir meu black power de vez”.

O retorno ao crespo demorou oito meses. “Cheguei a fazer o big chop quando tinha quatro dedos de cabelo natural. Todo mundo ficou ‘nossa, você não fez isso!’. Quem não tem coragem vai aos poucos”, sugere.

Tempos depois, ela viu a irmã de nove anos passando pelos mesmos dilemas que ela viveu na infância. “Ela estava pensando em alisar”, diz.

Para mostrar que manter-se longe da química era uma boa opção, Cristina recorreu às redes sociais. Combinou que postaria uma foto da irmã com o cabelo solto no Facebook e elas aguardariam a repercussão. A irmã topou o desafio, e ao ver sua imagem render muitas curtidas e comentários favoráveis, desistiu do alisamento.

‘Achava lindo, mas não conseguia imaginar em mim’

Dicas para a transição capilar
O cabeleireiro Almiro Nunes, dono da Clínica dos Cachos, disse que metade das clientes do salão estão passando pelo processo de transição capilar. Veja as dicas do profissional:

– Procure informação. Há muitos grupos em redes sociais, blogs e vídeos sobre o assunto.
– Tenha paciência. Saiba que nem sempre o que você quer é o que vai ter. Cada um tem seu cacho, seu volume, seu meio de convívio.
– Para quem não quiser fazer o big chop, corte aos poucos, de maneira que tenha cabelo suficiente para prender, usar faixas e turbantes, acessórios que ajudam no processo.
– Tente usar produtos higienizadores sem espuma, condicionadores sem silicones, e não use derivados do petróleo nos cachos.

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